quinta-feira, 7 de abril de 2016

Arco de Virar Réu, Antonio Cestaro



"Estou assimilando a ideia de que dormir e sonhar é o ensejo para mergulharmos na natureza essencial daquilo que seríamos se não fosse o pacote de regras que exigem, desde o berço, que sejamos o mais próximo daquilo a que fomos, por manipulação e interesses alheios, destinados" (pág. 83)

A loucura. O inconsciente a céu aberto, disse Lacan quando falou da psicose. Esquizofrenia. Dividir a mente em dois. Delírio, alucinação. Funcionamento psíquico que encanta a arte e a literatura desde os tempos primeiros. Mas que, na vida real, encarcera o sujeito e o deixa à margem da sociedade. Em seu primeiro romance, Antônio Cestaro decidiu contar uma história que pretende flertar com a fragmentação de uma mente psicótica. O espaço que pertence à dispersão, ao duelo com o que vem de fora, ao medo daquilo que permanece descoberto. O narrador é um historiador com os estudos voltados para a antropologia e que, em determinado momento, percebe que há uma relação entre o discurso da loucura e aspectos dos rituais e costumes de uma tribo indígena tupinambá. Sua percepção vem a partir do irmão Pedro, diagnosticado na adolescência como esquizofrênico.

A epígrafe da primeira parte de Arco de virar réu faz referência à célebre frase de Tolstói no início de Anna Kariênina e denota que ali teremos a apresentação de uma família infeliz à sua maneira. Um pai que abandonou o lar, deixando para o filho mais velho a incumbência de ser a figura de autoridade masculina e o irmão que, depois disso, ficou cada vez mais arredio e menos participante das atividades que envolviam muita gente. Há uma menção também à economia do país na década de 70 e ao milagre econômico que, assim como aquelas pessoas, tentava esconder uma ruptura que estava prestes a acontecer. O país, a família e o sujeito. É nessa ordem que a realidade parece ruir na estrutura narrativa do livro. Mas é a partir da ótica individual que acompanharemos mais de perto o esfacelamento.

"A mãe foi estimulada a falar das suas dores, da sua queda e das armas que não possuía para combater o inimigo que havia se mudado para dentro dela. Interrompi os meus passeios divagatórios para ouvi-la dizer que a fuga do inevitável a colocava frente a frente com o vazio, o vácuo do qual é feito o abismo que suga com força poderosa os que resvalam com os pés a sua borda. Com pouco esforço, consegui lembrar até de quando ela era criança, e uma vontade de abraça-la e inverter a ordem dos tempos foi crescendo em mim" (pág 51)

quinta-feira, 24 de março de 2016

O despertar, Kate Chopin

Summertime (1894), Mary Cassat
O despertar (The Awakening) é a obra mais famosa e controversa de Kate Chopin (1850-1904), escritora estadunidense que começou sua carreira publicando contos. Em 1899, quando surgiu, o romance foi imediatamente repelido pela crítica da época por trazer em seu conteúdo questionamentos a respeito do papel da mulher no casamento e na criação dos filhos. Edna Pontellier, a protagonista do livro, está passando o verão com a família em Grand Isle, uma cidade do estado de Louisiana. Seu marido é um homem de negócios que passa muito tempo fora de casa em compromissos sociais e tem uma postura muito distante em relação aos filhos e à esposa. No começo do romance temos uma descrição minuciosa do lugar onde acontece a história, dos personagens e percebemos o quanto Edna está insatisfeita com aquela situação por não se encaixar nos costumes da sociedade em que está inserida. Sua relação com os filhos oscila entre o cuidado e a desatenção, sendo criticada pelo marido, que não a considera maternal o suficiente como costumam ser as outras mulheres do círculo de amizades deles.

As crises de angústia que acometem Edna são muito bem descritas por Chopin e chamam a atenção logo no começo do livro. O trecho em que o marido a acorda quando chega em casa para verificar se o filho está com febre, sem consideração nenhuma, como se ela fosse um objeto a seu serviço, é só um dos exemplos. Quando Mr. Pontellier descreve Adèle Ratignolle  como uma mulher e mãe ideal é como se ele ressaltasse as características que podem ser encontradas nas heroínas que conhecemos dos romances escritos na mesma época por homens, "olhos como duas safiras, lábios tão vermelhos como duas cerejas ou alguma outra deliciosa fruta de tom carmesim". A partir do momento em que Edna começa a perceber sua posição como mulher naquele meio e como aquilo a afeta, acontece o despertar ao qual o título se refere. Ela se dá conta que foi levada até o casamento por motivos alheios à sua vontade e mesmo antes, rememorando os homens pelos quais se apaixonou, percebe que seu maior desejo não era o casamento e sim a liberdade.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Literatura e Psicanálise: Angústia, Graciliano Ramos


*O texto contém muitas informações sobre o enredo.

Entre as criações de Graciliano Ramos, Angústia foi sem sombra de dúvidas aquela que mais mereceu comentários do seu autor. Grande parte desses comentários tinha o intuito de desmerecer o texto, uma rejeição da criação e uma espécie de ritual de autoflagelação, uma vez que criticando seu enredo, sua carpintaria e seus personagens, Graciliano estava aparentemente, como seu rebento Luís da Silva, penitenciando-se de um crime cometido. Esse procedimento vinha dissimular o que realmente pensava sobre sua criação: Angústia era seu livro predileto.

Angústia, além de ser o título do romance, é um conceito muito explorado na psicanálise, sendo considerado em Freud o resultado da transformação da libido sob a repressão dos desejos, ou seja, sendo um estado afetivo de desprazer. E é justamente essa sensação que experimentamos durante a leitura do livro, a de que estamos passando por um lugar estreito, que remete ao nascimento, sendo a consequência de uma situação real que é repetida durante a vida do sujeito, quase sempre, como um afeto. Para a psicanálise, o primeiro estado de angústia surgiu na ocasião da separação da mãe, algo que se afirma no caso de Luís, como veremos a seguir.

Luís da Silva é um homem solitário, funcionário público de 35 anos de idade, escritor frustrado por morar em uma pequena cidade do interior do nordeste e não ter o reconhecimento que pensa merecer. A narrativa é feita a partir do ponto de vista de Luís e é entremeada por lembranças da sua infância e do que está acontecendo no presente, como um fluxo de pensamento. É nesse devaneio que nos deparamos com a infância triste de Luís, que cresceu em um ambiente desprovido de afeto, com uma mãe muito dura e um pai distante. Essas passagens em que ele fala da infância se dão como uma tentativa de fuga da realidade, como se tentasse organizar a sua frustração com a vida atual e o desprazer proveniente do presente. Era de se esperar que essa fuga para o passado se consumasse em construções agradáveis de uma infância prazerosa, ou seja, o resgate de um menino do prazer e da delícia. Se assim fosse, faria sentido a fuga para os verdes anos da infância que os anos não trazem mais, mas isso não acontece. O que se observa é a composição de uma infância triste e solitária que antecipa e ratifica o adulto presente:
“Eu queria gritar e espojar-me na areia como os outros. Mas meu pai estava na esquina, conversando com Teotoninho Sabiá, e não consentia que me aproximasse das crianças, certamente receando que me corrompesse. Sempre brinquei só. Por isso cresci besta e mofino (p.120)”

segunda-feira, 7 de março de 2016

Veja mais mulheres / Entre Nós


Desde que Cláudia lançou o projeto Veja mais mulheres acompanho religiosamente as dicas e sempre que possível, vejo os filmes que ela indica. Também acompanho os posts de  Michelle que aderiu ao projeto e traz opções maravilhosas. Ontem, meio que por acaso, vi um filme dirigido por duas mulheres e resolvi escrever aqui porque o filme é lindo e tem no Netflix :) Ainda não sei se postarei dicas assim com frequência, mas tentarei manter uma regularidade.




Entre nos é um filme colombiano independente de 2009, escrito e dirigido por Paola Mendoza (que também faz o papel principal) e Gloria La Morte. Conta a história de Mariana, uma mulher colombiana que se mudou para os Estados Unidos com os dois filhos para encontrar o marido. Logo no começo do filme, ela é abandonada por Antonio, que resolve se mudar para Miami, deixando a família em NY. Mariana se vê sozinha com duas crianças pequenas, sem falar inglês, tendo que se virar para conseguir pelo menos alguma coisa para comer. Faz empanadas e tenta vendê-las na rua, procura emprego em restaurantes, entre outras coisas. Aos poucos o filme mostra as hostilidades que Mariana enfrenta sendo imigrante e mulher.

Não quero falar muito porque acho um filme interessante para se surpreender junto. Mas a delicadeza como certos assuntos são abordados é muito comovente. O abandono do pai que é naturalizado em contrapartida às dificuldades que a mãe enfrenta, como se só ela fosse responsável pelas crianças. O sofrimento dela em uma situação específica e como, mais uma vez, só ela precisa sofrer as consequências daquilo. Em tempos que discutimos tanto a autonomia das mulheres em relação a seus corpos, Entre nos é brutal ao mostrar a crueldade que alguns tipos de pensamentos simplistas podem provocar.

A história é baseada em fatos reais e quem quiser conferir mais a respeito, é só acessar o site oficial: Entre nos. E, claro, ver o filme :)

Beijos e boa semana!


domingo, 6 de março de 2016

Ilustrações de Santiago Caruso para Jane Eyre (Folio Society)


Quando eu comecei a falar mais sobre livros aqui no blog, tinha o costume de trazer ilustrações de edições interessantes que encontrava por aí... Hoje eu vi essas da edição de Jane Eyre da Folio e pensei que seria legal resgatar isso. O ilustrador é Santiago Caruso, um argentino que nasceu em 1982 em Quilmes, artista simbolista dedicado ao gênero fantástico, entre seus principais trabalhos de ilustrador, encontram-se: Jane Eyre  (Folio Society); El Horror de Dunwich, La Condesa Sangrienta e El Monje y la Hija del Verdugo  (Libros del Zorro Rojo); La Cena (La Caja de Cerillos); El Eco de mis Muertes (Self edition); Prisoner 489 and The Walls of the Castle  (Black Labyrinth); Senhorita Christina (Tordesilhas); Historias de Vampiros (Longseller);  The Peacock Escritoire and Tarshishim  (Ex Occidente Press); Three Great Plays of Shakespeare & Don Quixote, (Penguin Readers). No Brasil, a edição da Editora Alaúde de A condessa sangrenta de Alejandra Pizarnik conta com as ilustrações de Santiago. Para conhecer mais seu trabalho (belíssimo), é só acessar o site Santiago Caruso.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Outros Cantos, Maria Valéria Rezende

Mulheres do Brejo (da série Tacaratu - Retratos do Meu Sertão). Autora Ana Araújo. Imagem retirada daqui.

Então aprendi que aqui o que mais se carece é de paciência, saber esperar. A gente vive esperando, a noite, o dia, a chuva, o rio correr de novo, esperando menino, esperando a safra, notícia, o caminhão do fio, o tempo das festas, visita de padre, tudo coisa que custa a chegar. Não vê que aqui só quem tem relógio de máquina é o motorista do caminhão? Relógio aqui é o sol e uns riscos na parede. Nem folhinha a gente não precisa, só mesmo aquela mandada pelo neto de dona Zefa, tem pra mais de quatro anos, só de enfeite. Conta é o tempo de seca, tempo de chuva, tempo de festa.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, estava sentada perto da secretaria do departamento de Letras na Universidade Federal de Sergipe. Estudava no colégio de Aplicação e estava esperando a professora que fazia estágio em inglês para tirar uma dúvida. Ouvi uma conversa que me marcou profundamente e, de certa forma, me persegue desde então. Um aluno relatava ao professor que um geólogo estrangeiro, ao visitar o sertão nordestino, disse já ter visto muitos desertos em sua vida, mas  habitado daquele jeito era a primeira vez. A maioria dos desertos tem população nômade porque seres humanos não aguentam ficar naquele solo durante muito tempo. Não sei a veracidade dessa informação. Na época não tinha internet para pesquisar e essa fala povoou meu imaginário por muito tempo. Sou filha de gente do sertão. Então, entender porque esse deserto é habitado sempre foi uma constante nas buscas sobre minha identidade. Como aquelas pessoas tinham raízes tão fortes em uma terra que tem por hábito rejeitar? Minha (mini) biografia aí do lado dá uma pista: com o tempo eu aprendi que podia levar o sertão para qualquer lugar do mundo. Ele está dentro de mim. A literatura de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Francisco Dantas e Antônio Carlos Viana me ajudaram a entender o que isso significa. Agora que eu estou morando em outra região, tão distante daquilo que eu conheci primeiro como casa, Maria Valéria Rezende aparece para lembrar que sim, o sertão finca raízes fortes dentro da gente. É um pouco sobre isso que fala seu mais recente livro, Outros Cantos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Breve comentário sobre Macbeth

Macbeth and the Witches by Henry Fuseli

Entre 17 de julho e 14 de agosto de 1606, o rei Christian da Dinamarca visitava a Inglaterra de seu cunhado e também rei James.* Às pressas, foi requisitada a Shakespeare uma peça. Adaptando livremente certas lendas e eventos da Escócia presentes nas Crônicas de Holinshed, vem a ser Macbeth. A tragédia mostra como um nobre e honesto guerreiro mata e conspira, chegando ao divino trono da Escócia. Ele não faz isso pautado em mentiras, ele cumpre a verdade de uma profecia, que ele precisaria ser reto para traí-la. Contrariar uma profecia, porém, é descaracterizá-la, pois ela é forçosamente verdadeira. Macbeth, então, deve ser fiel e conduzir seu caminho de traições e perfídia.
 
No site Shakespeare Online é avisado que uma questão angustiava o autor quando da composição de Macbeth. É possível você alcançar algo para o qual não é digno? Determinadas posições só deveriam ser ocupadas por pessoas que fossem possuidoras de valor para tal. Ser rei, por exemplo, não deveria estar ao alcance de quem é dotado das características correspondentes? É interessante lembrar que ocupar este cargo é se imbuir de um status divino. Alguém pérfido, desonesto, peçonhento não carregaria os traços do divino. Ou carregaria? 

Esta é a primeira camada de questionamentos. Há uma segunda. Alcançar um cargo divino é algo que obedeceria uma ordem, um cosmo. Haveria uma ordem, um cosmo que seria imponente, impositiva e que jamais seria traída. É possível que momentaneamente alguém consiga dribá-la, mas logo depois essa ordem se imporá. Corrigirá a perturbação, conduzindo as coisas para os seus lugares corretos. É um dos sentidos que o grego atribui ao divino, condutor de algo, princípio ordenador de tudo. Isto é intransponível, não é?

Segue-se da segunda camada, a terceira. Aqui está o que para mim é o âmago do conflito em Macbeth. Um homem que é honesto não pode não ser honesto. Uma mulher correta, não pode ser desvirtuadora, de caráter duvidoso. Shakespeare parece perturbar-se: a dualidade é humana, a integridade é rarefeita. "Não há arte capaz de discernir na face a estrutura da mente" (Ato um, Cena quatro), falou o rei Duncan a respeito de traidores que quase colocaram o reino da Escócia em perigo. Ali perto, estava Macbeth, e toda a complexidade do que vem a ser uma pessoa nele presente. É trágico, é inegável, mas habita a vida humana o terror de não se ser o que se entende ser. Não, não é o comum e corriqueiro adágio clichê "ninguém é perfeito". É a percepção de que você pode se desfazer, não mais ser, ou ser outro. Basta uma simples crença, uma suave ânsia, e a perturbação se inicia. Shakespeare tenta tocar esse mistério, de nossa condição, onde negamos a nós mesmos: o demônio que somos é santo, e mente de maneira franca. O mistério permanece insondável, ele ainda ronda a trama de Macbeth, ou a nossa dualidade, que preferimos negar, por isso afirmando-a. 

*Prefácio da edição Penguin Popular Classics